Entrevista: Frederico Wanderley CIO da Casas Bahia

Rede inaugurou loja virtual mais tarde que concorrentes, mas Frederico Wanderley quer na web o mesmo sucesso da rede física

Ele é um entusiasta e grande defensor do mainframe. É absolutamente contra a terceirização em TI. Prima pelas tecnologias de ponta, que busca em feiras ao redor do mundo e testa na maior rede varejista do Brasil. O condutor da TI da Casas Bahia não sabia nada de da informação quando, em dezembro de 1993, depois de quase 20 anos trabalhando na companhia, recebeu do fundador Samuel Klein a missão de dirigir o departamento. Frederico Wanderley encarou de frente. Na época, em vez de seguir o caminho da maioria das empresas rumo à baixa, preferiu apostar na evolução do mainframe. E, na contramão, esteve também quando, em 2001, adotou o sistema operacional Linux. Mais recentemente, inaugurou um novo centro de em São Caetano do Sul, fruto de um investimento de R$ 20 milhões. Sua última empreitada, em 2 de fevereiro, foi o lançamento (ainda que tardio) da loja virtual, cujos detalhes o executivo contou à InformationWeek Brasil nesta entrevista que vai muito além do e-commerce.

InformationWeek Brasil – A Casas Bahia preparou-se durante anos para o lançamento do e-commerce. Por que a demora para entrar no comércio eletrônico?

Frederico Wanderley – Antes, a Casas Bahia não tinha interesse em entrar no e-commerce. Não porque não seria uma boa ideia, mas não era filosofia do grupo. Mas, independentemente disto, a TI estava preparando a loja. Nós queríamos fazer um projeto que fosse totalmente diferente do que existe, porque a Casas Bahia usa mainframe e precisávamos ter a mesma , e o mercado de e-commerce trabalha com baixa.

IWB – O que muda?

Wanderley – Muda muito, porque as lojas virtuais que existem no mercado estão segregadas, ou seja, estão hospedadas em um site preferencial e enxergam o depósito delas. Na loja virtual da Casas Bahia não: o processo é diferente, a enxergamos como mais uma loja dentro da nossa cadeia. A loja virtual está diretamente acessando o estoque, que não é só dela, mas da empresa como um todo. E usa também o mesmo sistema de .

IWB – O CRM e BI também estão acoplados?

Wanderley – Temos em todas as lojas a mesma (que inclui BI e CRM), e isto não muda no caso da virtual.

IWB – Os quatro anos que vocês demoraram fazendo o e-commerce não foi apenas a parte de TI, mas também a de planejamento negócios. O que foi mais difícil?

Wanderley – Foi justamente deixar a e o sistema prontos para entrar a parte comercial, porque esta é a mola mestra do sistema. Hoje, somos referência mundial da IBM em e-commerce, porque não existe nenhum cliente no mundo fazendo na loja virtual o que fazemos em mainframe, com banco de dados acoplado e como se fosse uma venda na loja física. E tem o diferencial de uma velocidade muito grande.

IWB – Isto se deve ao mainframe?

Wanderley – Mainframe é muito rápido, então, fornece uma resposta muito rápida ao processo e nós colocamos dois links de 100 megas somente para loja virtual. Fizemos testes de estresse e chegamos a mais de 10 mil clientes no mesmo segundo sem problemas.

IWB – Quanto a loja virtual vai representar para a casas bahia?

Wanderley – Fizemos estudos para que no ano que vem chegássemos a 2% das vendas da empresa pela loja virtual. Você pode até dizer que 2% não é nada, mas temos de R$ 14 bilhões, então, qualquer 1% é muito.

IWB – Como estão os acessos?

Wanderley – Monitoramos constantemente o acesso e percebemos que o grande volume é no horário comercial, com número maior de vendas no período da tarde. Nos 17 primeiros dias de existência, tivemos uma média diária de cerca de 70 mil a 80 mil acessos. E não fizemos propaganda ainda.

IWB – Vocês estabeleceram uma meta para o cartão Casas Bahia de 4 milhões de clientes para entrar no e-commerce?

Wanderley – Na verdade, não foi estabelecido este objetivo para entrar no e-commerce. A empresa se deu uma meta do cartão de bandeira Visa e acreditava que os 4 milhões era um patamar ideal para entrar com loja virtual.

IWB – Qual é a relação?

Wanderley – A relação é que nosso cliente é das classes C e D – e nossos cartões estão nesta faixa. Assim, você cria uma base, porque no comércio eletrônico o cartão é a base para a compra. Houve um aumento na aquisição de computadores, mas isto não foi o determinante, mesmo porque o pessoal usa o computador do trabalho.

IWB – Como está composto o investimento de R$ 3,7 milhões na loja virtual?

Wanderley – Não posso abrir esta composição, mas diria que uns R$ 3 milhões foi para e o resto para e outros processos.

IWB – Mudando de assunto, a Casas Bahia fez alguns testes com RFID. Qual é a estratégia para a etiqueta por radiofrequência?

Wanderley – Estamos pesquisando há dois anos, fazendo o levantamento dos dados, investindo, ganhando conhecimento, buscando saber em feiras e eventos internacionais como está a adoção. Lá fora estão usando a RFID em quase sua totalidade nos pallets, mas isto não nos atenderia. Queremos fazer a administração do nosso depósito e do centro de distribuição. Então, tem de ser por item. Fizemos um projeto piloto durante a superloja no Anhembi (SP). Cada produto saía do centro de distribuição em Jundiaí (SP) com as etiquetas inteligentes e no Anhembi colocamos portais para a leitura. Começamos o projeto em 21 de novembro. As informações iam direto para nossos sistemas, para, por exemplo, fazer o controle de estoque. Conseguimos ler 95,3% das etiquetas.

IWB – O custo ainda é uma barreira para uma adoção maior?

Wanderley – O caro é relativo. A etiqueta quando começou era cara, saía em torno de US$ 2 cada, mas hoje não. Para o projeto do Anhembi, mandei buscar nos Estados Unidos e ela custou centavos de dólares. Então, US$ 0,20 é caro para controlar o estoque, desvio, informações em tempo real? Você deve levar em consideração todos os ganhos. E o pioneiro paga por isto mesmo, não tem jeito. Quanto custa você ter todo o complexo de gente para fazer o inventário demorado?

IWB – E agora qual é o próximo passo?

Wanderley – Estamos fazendo a análise da viabilidade em função do que vimos no Anhembi e vamos fazer um projeto para que todos os depósitos e lojas passem a ter RFID.

IWB – Que balanço você e a diretoria fizeram?

Wanderley – Muito positivo. A receptividade foi boa, tanto entre os funcionários como a diretoria, que gostou. Você passa a ter um controle da loja maior, faz inventário rapidamente, tem várias mudanças que são perceptíveis para qualquer funcionário. Imagina a diferença no descarregamento de caminhão: no tradicional leva duas horas e com RFID, meia hora.

IWB – No futuro, você imagina que a etiqueta virá no produto?

Wanderley – Já estamos conversando com alguns fornecedores para embarcar a etiqueta. O que é fabricação nossa – como os móveis – estamos trabalhando para sair com a etiqueta. A tendência é esta e o processo em si, irreversível. Pode levar um pouco mais de tempo agora por causa da crise mundial, que vai fazer muita gente suspender , o que eu acho uma grande maluquice, porque você tem de avaliar a como aumento de produtividade. Mas cada empresa age como melhor achar, mas, se todo mundo começar a adotar o padrão de RIFD, será igual ao processo de código de barras.

IWB – Qual é a meta?

Wanderley – Espero em breve, dentro de um ano ou 1,5 ano, começar a ter RFID em uma boa parte de lojas e depósitos. Vamos melhorar a parte de abastecimento e definir onde colocar a etiqueta. Parece tão simples, mas tem de ter padrões e estabelecer os processos, que representam cerca de 60% do projeto de RFID. Nosso projeto engloba até a na casa do cliente, com antenas no caminhão e com GPRS para dizer a posição e se está entregando certo.

IWB – Há quantos anos você está na Casas Bahia?

Wanderley – Não gosto muito de falar de minha trajetória… Dia 5 de março, completei 34 anos de empresa. Comecei na área financeira, numa quarta-feira de cinzas de 1975, imagina um pernambucano que sou, com o carnaval na veia (agora não está mais) chegando às sete horas da manhã (risos). Fiquei na área até 1992, quando a empresa extinguiu a financeira. De 1992 a 1994, assessorei seu Samuel [Klein, fundador da Casas Bahia] e, em dezembro de 1993, houve uma modificação na área de , cujo antigo gerente havia saído, e me chamaram para assumir.

IWB – O que você conhecia de TI?

Wanderley – Nada. Eu era um grande usuário de informática. Peguei o pepino na mão na época do downsizing e nós tínhamos mainframe, que era o 3090, da IBM, um equipamento resfriado a água, parecia um computador de jogos de guerra, enorme, pesado… Entrei para tomar conta e, ao invés de fazer o downsizing, fui para o 9121, que era cem vezes mais forte que o outro. Desde então, só fomos aumentando a no mundo de mainframe até que, hoje, temos o System z10. Temos muitas transações (saímos de 425 mil clientes, em 1994, para 16 milhões, em 2004) e precisamos de um equipamento com alto desempenho. Hoje, temos dois sites (não é site backup) trabalhando em paralelo. Tudo que existe em um tem no outro, eles trabalham juntos, com carga balanceada, concomitantemente. É altamente estabilizado.

IWB – E isto tem a ver com a WAAS (wide area application services)?

Wanderley – O WAAS é um sistema que evita que você trafegue na rede a mesma informação várias vezes. Com isto, ganhamos velocidade. No primeiro teste de viabilidade que fizemos no do SAC, que é muito interativo e busca muitas informações, verificamos que o tempo de uma aplicação que demorava 20 segundos caiu para um segundo. E isto vale para qualquer coisa que transite pela nossa rede.

IWB – Por que a Casas Bahia é contra a terceirização?

Wanderley – A filosofia da Casas Bahia parte do princípio que somos nós que conhecemos o negócio. Os funcionários da , por exemplo, são antigos, estão em média há 14 anos aqui. O que acontece na terceirização: você chama o consultor, mas ele não conhece o seu negócio, não entende e demora. E a Casas Bahia é muito rápida. Se tiver mudanças, tenho de fazer rapidamente. Todos os dias eu almoço com a presidência [para estar alinhado].

IWB – Como a presidência enxerga a TI?

Wanderley – Ela entende que a TI é a propulsora para atender a todo este público, por isso, que dão carta branca para investir.

IWB – De quanto é seu orçamento?

Wanderley – Não tenho definido, porque em TI você não pode ter um orçamento fixo, a é muito rápida. Se você trabalha em cima de orçamento fixo, não parte para a de ponta. Lógico que não vou usar qualquer , já sei o que é bom para a empresa. Tem de ver se aumentou produtividade, melhorou os custos e a satisfação do cliente.

IWB – Você tem alguma estatística de quanto representa cair o sistema?

Wanderley – Se o sistema ficar parado por uma hora numa data como o dia das mães, que vende em torno de R$ 120 milhões, a Casas Bahia perde uns R$ 10 milhões na hora. Por isso, temos um sistema redundante, totalmente em tempo real e que trabalha independentemente, além de links de contingência com várias operadoras.

IWB – Os diretores controlam as vendas em tempo real. Como são estes painéis?

Wanderley – A Casas Bahia é uma empresa 100% tempo real. Qualquer transação que acontece temos a informação na hora. Então, os diretores vêem suas informações real time. Temos uma tela de vendas por hora, atualizada a cada segundo e que mostra as tendências do dia, se vai atingir os objetivos, quanto será o . Isto ajuda a acelerar a cobrança nos diretores e gerentes de lojas. É um sistema desenvolvido por nós e atuamos em tempo real desde 1997. Fomos fazendo com as ferramentas que existiam na época e depois melhorando.

Autor: Roberta Prescott

Fonte: InformationWeek Brasil

Popularity: 36% [?]

Bookmark e Compartilhe

Estes artigos podem lhe interessar:

2 Responses to “Entrevista: Frederico Wanderley CIO da Casas Bahia”

  1. Anuar Dequech Jr. disse:

    Roberto,
    Vejo alguns pontos importantes nesta entrevista, tal como, ver a loja virtual como mais uma loja e controlar o estoque integralmente, geralmente se faz isso de forma independente, né? Outra coisa é imaginar o controle de estoque desse gigante, haja precisão!
    Por fim, eles estão considerando um faturamento só de 2% com a loja virtual no grupo mas o montante é bastante importante, gira em torno de 280 milhões, se não errei nas contas.
    Isso mostra o quanto o comércio eletronico ainda pode e irá crescer.
    Abs,
    Anuar

  2. Maria Maia disse:

    Para compra o sistema excelente, mas para resolver problemas com relacao a trocas ou atendimentos e pessimo.
    Estou tentando resolver e nao consigo.

Leave a Reply

Get Adobe Flash playerPlugin by wpburn.com wordpress themes

Clentes, Amigos e Parceiros
  • 2 Geek
  • Agrega
  • Bíblia por Email
  • Centro das Compras
  • ComunidadeWEB
  • Corinthians TV
  • Evangélicos OnLine
  • KiBobagem
  • Noite Sertaneja
  • Nossa Digital
  • Pano Ecológico
  • Que dia é hoje?
  • Quero Vender Seu Produto
  • Quiropraxia TV
  • Rio Quente Resorts
  • Soluções em Odontologia
  • URL Soluções para InterNET
  • Watch System
  •  
    SEO Powered by Platinum SEO from Techblissonline